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Última atualização: 28/05/2007

Terça-feira, Julho 15, 2008

ESCRACHANDO GERAL

Pedi uma latinha e fechei a conta, pois não daria tempo de terminar outra garrafa. Mantive, desse modo, a tradição da saideira em número ímpar e permaneci em um balcão anexo. Executei uma panorâmica no ambiente: na outra ponta do balcão principal, quatro amigos tiravam zerinho-o-um para ver quem era o sacrificado que ficaria seco; quatro amigas lanchavam numa mesa, um casal bebia em outra.

Voltei, então, ao meu discurso. Sim, eu elaborava mentalmente alguma coisa de uma palestra vindoura e também a misturava com futuras aulas para o segundo semestre. Sem dúvida, com certeza, eu era o louco do bar, inclusive com linguagem corporal e gestos, parecia uma grande apresentação para um selecionado e exigente público. Ainda bem, porém, que não percebia o ridículo disso naquele momento.

Duas meninas saem de uma mesa e vão ao dono do bar para pagar, apesar de terem passado bem próximas a mim, não atrapalharam meu desempenho a não ser, segundos mais tarde, com a frase gritada por uma delas:
— ...foi pulando a cerca.
E a amiga completou:
— Aí ela ficou assim. Viu? Foi fazer besteira, coisa que não sabe.

Assim mesmo, a moça declarando que pulou a cerca, para o dono do bar e para quem quisesse ouvir. Quem sou eu para julgar o relacionamento de alguém que jamais encontrei, mas acho que essas declarações poderiam ficar no âmbito das confissões secretas.

Se eu a vir de novo, de mão dada com o companheiro, ficarei na dúvida se é o corn..., o namorado oficial ou o objeto que habita o outro lado da cerca. A mulherada não está nem aí para o que vão pensar dos seus relacionamentos, e ainda encontram fiéis comparsas para o auxílio.

Fiquei prestando atenção para ver até onde iriam as declarações públicas da moça. Até o dono do bar estava impressionado.
— Mostra aí. — Falou a comparsa.

O que ela iria mostrar? A foto do cara, ou do namorado?

A moça levanta parte de sua calça mostrando o tornozelo e a canela, tudo arranhado, bem como parte da mão direita e do antebraço.

— Nunca mais faço isso! Pior que nem precisava, porque o portão era pertinho, mas eu não enxerguei. Era só andar mais um pouquinho.
— Uhahaha, muito sem jeito ela!

Bem, eu devo analisar melhor a literalidade de algumas expressões... ou não ouvir mais as conversas dos outros.

Petrópolis, 9 de julho de 2008.

postado por THIAGO às 09:10

Quarta-feira, Julho 02, 2008

Epitáfio dos Titãs, numa versão Canis Familiaris

Devia ter corrido mais
Mas deixado o carteiro em paz
Lamber e não morder
Devia ter brincado mais
E até me molhado mais
Ter feito o que o cio mandava fazer...

Queria ter aceitado
As rações como elas são
Cada um sabe agonia
E a dor que traz a indigestão...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter rosnado menos
E até babado menos
Ter comido mais devagar
Devia ter me importado menos
Com problemas felinos
Fazer cocô sempre no mesmo lugar...

Queria ter aceitado
O sábado como ele é
A cada um cabe um banho
E a tosa que vier...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter uivado menos
Ter cavado menos
Ter visto o sol se pôr...

postado por Rafael Marçal às 16:51

Sexta-feira, Junho 27, 2008

ESTRADA ONÍRICA DA VIDA

Oxente! E quem é que disse que eu não ia conseguir? Hein? Me diz, quem? Eu e essa máquina porreta aqui podemos rodar o mundo! Diz para mim, menina, quem foi que duvidou de mim, quem foi que duvidou da gente? Foi aquele barrigudo de voz grossa, foi? “Olhe hômi, tu num és cabra bastante para encarar João Pessoa-Sum Paulo numa carreta dessa, visse?” Vi sim, leitão! Tanto vi que tô aqui, ó. Que horas são? Ih, vixe Maria, mas tem tempo de sobra. Via Dutra já é minha, tenho a noite toda! Gosto dessa música, vou aumentar... mais um pouco, ixe, já tá no talo esse volume! Sozinho? Sozinha nada! Quem disse que está sozinho com Luiz Gonzaga não sabe o que é solidão. “Lá no meu pé de serra deixei ficar meu coração/ ai que saudade tenho vou voltar pro meu sertão”! Tô sem sono, abre o olho, abre o olho! Voismicê se chama José João de Macabeus, filho do falecido João Onório, véio forte que morreu honrando o trabalho. Pode dormir não! Oxe, mais um pedágio. Xemevê se tem dinheiro. Ai, opa! Segura o volante Zé João! Só me faltava essa, vai deixar Onorinho e Dandara órfãos de pai? Vixe, sai pra lá mau pensamento. Eita! Tem ainda duas bolinhas. Espere, moço, já pego o dinheiro. Oi? Vou para Sum Paulo, bicho? É assim que vossemecês falam aqui, né? Ahn, é São Paulo, brother. Hehe, entendi. Tome moço, taí o dinheiro. Como? Oxent... e eu num sei disso: Serra das Araras, atenção redobrada. Tô bem, moço, gradecido pelo aviso. Fique voissemicê com Ele. Aumenta que eu quero música de qualidade! Se tivesse mais um tempinho, parava na estrada para um forró. Lembrar de Campina. Ô Campina Grande, portal do Sertão. Lembrar de Socorro, ô mulé forte. Minha companheira; Deus e Padim Ciço, com as mão de Onorinho, que guarde aquela santa. Proteja Dandara tumém. Ai saudade! Uãã! João, Zé João, acorda que tu tem trabalho, cabra! De manhãzinha é só ligar para João Pessoa: Cheguei, patrão, Vila Madalena... ou Mariana. Oxe, esqueci o raio da mulé que deu o nome pra vila. Se avexe não que tenho boca. Acabou a bolinha, é? Xemevê se tem mais... hum... tem não. Ué, cerração no Rio? Ah, é serra, oxe. Me esqueci, deve ser o sono. Que sono o quê, cabra! Que sono?! É José e João é de Macabeus; e homem, Hômi com aga maiúsculo! Dorme no serviço, não! Nessa viagem mermo, tomei todas no posto de Ilhéus e segui rumo muito bem, sei disso. Tô acesinho! Mais que eu só o Sol. Ai, ai, vixe, opa! Passei a curva e agora é descida, nem vi. Não é que é perigosa a serra? Bom, pois bem, cala-te pensamento. Dirija. Tá pensando muito, muito mesmo. Demais até, pode pensar em trabalho não. Ah... Socorro, está tão bonita, já voltei sim, meu doce, docinho. Eita saudade! Olhe Onorinho, cresceu nesse tempo, um mês, vixe! Cuidou de mainha, foi? Painho voltou, painho vai mas volta. Olhe Dandara, já visse coisinha mais linda que essa bonequinha? Painho trouxe. Agora vão pro quarto dormi que painho tem que faze carinho em mainha, vá, vá. Vamos pretinha, venha cabritinha. Seu Zé João chegou. Vamos Socorrinho do pai, minha Maria do Socorro. Dormí não pode! Tá sonhando Macabeus, Acorde hômi, acode, acuda. Caí, eita que, barulho, que dor! Ai!

Petrópolis, janeiro de 2005.

postado por THIAGO às 21:46