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Crônicas, contos, artigos, escritos em geral.
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Última atualização: 28/05/2007 |
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Segunda-feira, Junho 29, 2009
A HERANÇA
Esses indivíduos ou empresas especializadas em Spams podem ser tudo menos otários. Na verdade, otários são os que eles procuram e de repente calha do otário ser você, de acordos com as circunstâncias. Se não fosse a eficiência do meu atualizado anti-vírus, poderia estar com o computador fadado à perda total. O otário quase fui eu.
Recebemos um e-mail do departamento de Ciência Política, recomendado por um professor do departamento de Relações Internacionais da UFF, sobre um intercâmbio entre mestres e doutores do Brasil e de Angola, proposto pela Universidade Agostinho Neto, sediada em Luanda. Impressionante como todos desconfiaram de início, porém a fidedignidade do assunto foi comprovada, inclusive por mim, que me comuniquei com a faculdade de Letras e Ciências Sociais da dita universidade angolana. A proposta me interessou e até março deste ano receberia a resposta que, em si, já era a aprovação, ou seja, quem não recebeu não foi aprovado. Eu não recebi.
Mas havia ficado na expectativa. Alguns spams não vão direto para a caixa destinada a eles, e, em certa ocasião, esperando a resposta africana apareceu um e-mail cujo assunto tinha a ver com a África. Abri-o e só depois disso percebi que era aquele famoso e-mail de uma herança que você tem que receber de um moribundo ou morto milionário na África.
Como os detalhes suspeitos do e-mail foram bloqueados, pude ler o seu conteúdo, em inglês oxfordiano. Pelo que entendi, em Lagos, ex-capital nigeriana, o testamento de um velho milionário daquele país continha meu e-mail para que seus assessores me pusessem a par da herança que tinha direito. Digo que só havia meu e-mail porque pediam todos meus dados, inclusive conta bancária, a fim de me enviarem a passagem Rio – Lagos (GIG - LAS), sem acompanhante, para receber pessoalmente o montante milionário do qual eu tinha direito.
Lembrei-me do meu velho companheiro Lawrence Okitchue Kanuba, — só poderia ser dele o testamento — que juntos lutamos para transposição do governo federal de Lagos, que ele tanto amava, para Abuja, concretizada em 1991. E saímos vencedores. Lagos poderia se reerguer sem a influência dos onerosos deveres e demais responsabilidades de uma grande capital. Foi árdua a luta.
E soube de supetão sobre sua morte, sem estar presente ao enterro. Deve ter sido estranho para os ouvintes, em seu leito de morte, a lembrança de meu nome pouco antes de seu ultimo suspiro: “Please, find Thiago, in Brazil. He deserves part of my fortune”. Mas ele e sua família sabem o quanto me esforcei para seguir suas causas.
Não. Eu não fui para Nigéria receber a fortuna. Nada me compensaria da perda de um grande companheiro de batalha senão a lealdade que sempre tivemos. A grande receptividade que tive lá, o acolhimento de Mrs. Kanuba, as conversas longas com os filhos deles, Timmy e a bela Kaliah, os quais eu considero irmãos, em passeio pelo Brazilans’ quarter,. As aulas de Yoruba e algumas lições do Alcorão. Não, não era digno receber dinheiro depois de tudo que passamos e que fizeram por mim.
Por isso, nem respondi de volta. A minha memória na Nigéria morre com o velho Larry Kanuba. Chega de lembranças.
Teresópolis, 28 de maio de 2009.
postado por >THIAGO
às 11:38
Segunda-feira, Junho 01, 2009
SE O SPAM É INEVITÁVEL...
Acredito que todos saibam o que é e sofram de Spam em seus e-mails. Diferente das malas-diretas, as quais dispõem uma opção de não receber mais aquele tipo de informação “clique aqui”, os Spams — não sei o plural disso — são perversos. Neles vêm artifícios que comprometeram a segurança de seu computador, camuflados de endereços falsos e origem duvidosa que ludibria a pessoa. Cuidado, você pode ser enganado! Podemos denunciar Spams, mas somente aquele, de infinitos endereços, será bloqueado, e estamos fadados a recebê-los enquanto durar nossa ERA da Informática e das avançadas Telecomunicações.
Entretanto, os caras que bolam este tipo de golpe acreditam piamente na ingenuidade cibernética e social do ser humano. E tem gente que cai nessa, ninguém está livre.
Temos o clássico dos clássicos: “Enlarge your Penis and make your girl crazy”, comumente acompanhado de fornecimentos diretos e mais baratos de Viagra. A ameaça de cancelamento de contas, tanto bancárias como de e-mail. Se fosse tão fácil fechar uma conta por e-mail, já teria feito isso.
Comprovantes de depósito nas contas de bancos que não temos conta; fotos de sua esposa te traindo e fotos, inclusive suas, em festas nas cidades por onde jamais passou. Nesses dias recebi um e-mail de uma tal Camila Souza, mandando uma foto para que eu visse como eu estava numa rave... em Londrina, onde jamais, em tempo algum, estive.
Notificações judiciais de órgãos inexistentes: Ministério Judiciário da Procuradoria Privada da União, ou algo mais esdrúxulo, pode solicitar, pelo seu e-mail, comparecimento para a defesa de um crime que você cometeu.
É vasta a gama de Spams comédias que recebemos. Há dois deles que eu gostaria de responder, transformando-o em mote para romances best-sellers da Literatura. Um de caráter amoroso e outro sobre uma herança a que tenho direito. Pelo espaço que temos aqui falarei somente do primeiro.
Recebi de uma joana (sic), o seguinte clamor:
“hoje me sinto tão triste por estar longe de ti, me ignora, não me responde, não me faça sofrer, por favor... eu te amo, não faça do amor algo desonesto
Responder Mensagem”
A incoerência é flagrante, logo, responderia assim:
Joana, minha fina flor do maracujá,
Bem sabes que nosso amor estava fadado à efemeridade, à simples ventura. Tu recordas? Fingir-me de mendigo mudinho, todos os dias, para entrar no seu convento e pedir um prato de comida, burlar as freiras e depois passarmos a noite juntos sobre a relva do jardim, — eu com a mais belas de todas as noviças — era uma ventura nefasta diante dos olhos Divinos, e da moral de nossa sociedade. Minha mulher desconfiava, minha filha sentia a ausência do pai. O meu chefe já não me via mais como o dedicado amanuense que eu sempre fora, ícone da eficiência, honestidade e competência para com o dinheiro público.
E quanto a ti, deverias desconfiar que todo o convento já sabia de nosso pecado, tanto que a Madre Superiora me deu um ultimato: ou me deitava com todas as noviças e freiras, ou nunca mais receberia aquela bela sopa. E como era todo e somente seu, preferi abandonar tudo, sem ao menos me comunicar, deixando-te apenas um exemplar de Decameron, do Giovanni Boccaccio, para que soubesses de onde tirei a ideia do mendigo mudinho. Viste? Não sou um homem criativo. Espero que tenhas lido.
Mas, agora, quanto ao seu bilhete, tenho minhas dúvidas se teu amor por mim era verdadeiro. Repare na confusão de seu bilhete: “hoje me sinto tão triste por estar longe de ti”, hoje? Somente um dia? “me ignora, não me responde, não me faça sofrer, por favor...” isso tudo foi um pedido? Ignorar-te? Não te responder? E depois, não te fazer sofrer? Pergunto-te, meu doce de abóbora com côco, que deveria fazer: ignorar-te ou não te fazer sofrer? Ou os dois?
Contudo, me amas, mas não fiz do amor desonesto, não... as regras da desonestidade do amor não foram estabelecidas por mim.
Mensagem respondida, câmbio, desligo.
Teresópolis, 28 de maio de 2009.
postado por >THIAGO
às 14:54

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