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Última atualização: 13/10/2006

Terça-feira, Março 27, 2007

ADORÁVEL ENXURRADA DE OPRESSÃO

O título parece forte. Ainda mais quando vinda de Karl Marx, queem sua obra "Luís Bonaparte e o 18 do Brumário":

"Os espectros dos antepassados oprimem os cérebros dos novos".

Minha casa nova era chamada pelo meu avô Rubens de Nossa Casinha. Foi quando eu nasci que ele decidiu se dedicar à profissão avô. Digo isso porque ele se aposentou da Fundação Osvaldo Cruz e das aulas de Química nos cursos de vestibular e Bioquímica nas faculdades de Medicina. Então, com 58 anos, passou ser além de avô, avô com dedicação total, durante 10 anos! Sim, foi cedo, como todos nós, seja que idade estivermos.

Melhor para todos os netos. Marcou-nos tanto as idas nos fins de semana, carnavais etc. a essa (agora esta casa) que ainda ecoa os barulhos das imitações de animais da fazenda e da floresta ao descer as escadas de seu quarto para tomar café conosco. As tardes na mesa grande desenhando e pintando ganhando prêmios por acertar contas de matemática, ou acertar a símbolo químico de cada elemento, ou fazer palavras cruzadas. Jogando bola e brincando pelo jardim que, na época, era um pouco menor que o de Versalhes. Tantas coisas...

Guardávamos os papéis, lápis e canetas na gaveta dos netos-depois cada um teve a sua- e lá havia surpresas; chocolates, balas de hortelã e diversas guloseimas. Eu, mais velho, ia com ele, no Opala Comodoro, dourado metálico - e de minha idade -, pegar água na fonte Judith. A pura água da montanha, hoje está poluída. E também ia à Cascata dos Amores. Era aos domingos, voltávamos todos para suas respectivas casa e a Nossa Casinha nos esperava para outros fins de semana.

Hoje é inevitável lembrar tudo isso, se é que um dia esqueci, quando passeio pela cidade, já adulto. Dia 26 ele faria 82 anos. Tanta coisa ele poderia ter visto conosco aqui, mas viu de onde nós acreditamos que ele esteja. Por isso adorável opressão em meu cérebro. Lembranças boas que os avós dão aos netos.

Ah, sim, devo explicar o termo enxurrada. Além da Fonte Judith e da Cascata dos Amores, A CEDAE, companhia de água e esgoto do estado, deixa na caixa do correio um comunicado de tarifas atrasadas. Vou resolver esse problema na filial da companhia, inclusive mudando o nome de Rubens C T de Mattos da titularidade, que ainda está lá.

-Pode deixar vô, mudarei para o nome de seu filho, que lutou muito para reerguer o astral e a beleza da Nossa Casinha.

Teresópolis, 27 de março de 2007.

postado por THIAGO às 22:54

Quinta-feira, Março 22, 2007

PRIMEIRAS INCURSÕES

É tanto assunto manuscrito que precisei de uns dias para escolher um texto estrearia a literatura deste nosso humilde espaço. Quase igual a quantidade de caixas (10³ em ordem de grandeza).

Curiosidades inéditas sobre caixas e mudanças já tem suas devidas crônicas. Da galera da mudança e do pessoal da obra também. Para variar, só figuras de bom caráter e exímios trabalhadores. Aprendi bastante coisa dando uma olhada nos serviços e enchendo o saco deles... achava que enchia o saco, mas eles se amarravam e apresentar suas obras. O salão de jogos e a lavanderia tomam suas primeiras formas; depois, por último, mas não menos importante: A CHURRASQUEIRA!

Na sexta-feira, a primeira (perdoe-me pela rima): uma latinha de Brahma com meu pai enquanto esperávamos a ágil moça da padaria cortar em fatias a mortadela. Mais à noite, começamos, eu e meu irmão mais, as pesquisas de campo, no mesmo estilo que foram as despedidas dos bares de Petrópolis.

Entretanto, não entramos no primeiro bar que vimos... sei lá, não bateu com o nosso santo. O nosso santo já pedia sua dose inicial, então, descemos um pouco mais a Oliveira Botelho, rua de cima e chegamos a um bar. Este sim! Pedimos uma Thezópolis gold, não tinha; uma Teresópolis pilsen, também não; mas Lokau tinha! Não, nem cartaz. Logo, pedimos uma Antarctica Original, para nos lembrar do tempo que a casa era e veraneio e os adultos, (menos nós, crianças) bebiam essa marca ou Bohêmia.

Cadeiras de plástico, mesa idem, amarelo Skol; essa foi a marca das outras três ou quatro que bebemos. Ficamos pensando melhor, como diria, o saudoso mestre Chico Science.

Barzinho de esquina, "Garota do Alto", antigo anexo de uma churrascaria, "Rei do Laço". Máquinas de jogos de azar (ou má sorte?), comidas de validade infinita, cigarros de marcas várias, livros de Direito numa prateleira. Livros de Direito numa prateleira?! Ah sim, um dos filhos do casal que trabalha no bar, deve estar nessa faculdade, mas qual deles? A avó também está por perto, sempre ajudando o pessoal.

Fechamos a conta para descobrirmos outro bar. A chuva havia diminuído, os nossos santos já tomaram suas devidas doses e ao sair para me despedir de um dos garotos eu vejo um letreiro: SINUCA E BILHAR! Que beleza... várias coisas em um só estabelecimento. Quis confirmar, porém, com um dos caras, e era verdade, não é um letreiro falso.

-Prazer amigo, qual o seu nome?
-Diego.
-Thiago, muito prazer.
-Ah, meu irmão também se chama Thiago.
-Para variar, hehehe. Poxa, mas que bom que tem sinuca aí, outro dia a gente vê. Mas quem é que faz Direito aqui.
-Eu mesmo.
-Que bom, cara, eu serei professor, em breve, de Ciência Polítca.
-Ah, dessa eu já passei hehehe, tô no 3º. Período.
-Muito bom, então até a próxima Diego, abraço a todos.

Saí vendo que havia máquina de Chope da Brahma, boa qualidade. Olhei a rua e vi que era a mesma do primeiro colégio, o São Paulo, que estudei em Teresópolis, nos dois anos que aqui morei, 1982. Ih, era também a rua da igreja onde meu irmão foi batizado, também em 1982!

Isso tudo me lembrou que ainda tenho que continuar a minha seqüência de textos sobre proximidade álcool/religião, mas... Brahma, Colégio São Paulo, a dose para os santos e a igreja onde meu irmão foi batizado; tudo isso ao lado do bar.

Bem, se formos tolerantes, esse texto tem a ver com a seqüência ainda.

Teresópolis, 22 de março de 2007.


postado por THIAGO às 11:02

Terça-feira, Março 13, 2007

PAUSA E MUDANÇA

Uma pausa na seqüência de artigos sobre religião e álcool foi forçada por causa de minha mudança de casa. Na verdade, a mudança da família.

Há dezessete anos não faço isso, e quando fazia minha participação era pouca, bem como minhas pequenas posses materiais. Agora o negócio é diferente. Voltaremos a Teresópolis, substituiremos a cidade do marido, D.Pedro II, pela cidade da esposa, Thereza Cristina. Junto com Petrópolis e Nova Friburgo, as cidades fazem parte da região serrana do Rio de Janeiro.

A beleza natural de ambas se equivalem. Teresópolis só não tem o bonito centro histórico de Petrópolis. Não se distam muito uma da outra, ligadas por uma estrada campeã em curvas. Quando ia para lá com meus amigos, durante a infância, um deles teve a pachorra de contar as curvas: 398, exatamente. Não sei como ele sobreviveu, porque sempre ficávamos enjoados nos bancos das Belinas e dos Opalas de que pai. Era interessante como cabiam seis moleques dentro daqueles carros.

Por estar localizada na Serra dos Órgãos, deduzia que a estrada era o intestino delgado da região, e surtia efeito também em nossos órgãos. Mas ao chegarmos na casa de lá, tudo era recuperado com muita diversão e encontro com os primos e amigos.

A casa foi idéia de minha bisavó paterna. Digamos que, pertencentes à burguesia comercial luso-brasileira, ela tinha bastante posses, reservas monetárias e caprichos, muitos caprichos! Em um belo dia no fim da década de 1940, minha bisa olha uma revista européia de decoração e manifesta o desejo (ordem) de construir uma casa igual àquela que ela havia apontado na revista. Eu disse igual, e não semelhante. O local escolhido foi na longínqua Teresópolis, em um charco perto do rio Paquequer, no bairro de Fátima, que depois virou Alto.

Parece um grande chalé austríaco, recebendo o título de refúgio d'alma, coisa já eliminada pelos novos proprietários: nós, porque não nos refugiaremos de ninguém, muito menos nossas almas. Em 1947 foi construída a casa. Segundo o mestre de obra Seu Paulo, ali só tinha coisa de extrema qualidade e já inexistentes. Alegria do pessoal da reforma.

Uma cidade com cerca de 150.000 habitantes é um micro exemplo da questão palestino-isralense. Só agora fui entender o que era aquele prédio grande, branco, com escritos esquisitos que eu via na infância. É uma sinagoga. Talvez já me disseram isso, mas até associar as coisas... A maioria da comunidade judaica carioca tem casa de verão em Teresópolis. Dominam as atividades advocatícias, engenheiras e médicas da cidade, segundo me contaram alguns que lá habitam.

O lado palestino prevalece no comércio, principalmente de combustíveis. Um só turco, como fiquei sabendo, tem 40 lojas no centro e no bairro anexo, que emperra alguns novos desbravadores do mercado de coisas miúdas. Falando em miúda, o pá, acredito que minha bisavó tenha escolhido Teresópolis por sermos cristãos-novos... vai saber.

Quando os aparelhos de telecomunicações e divertimento estiverem devidamente instalados lá eu retorno à novidades, que serão muitas, sobre as impressões da cidade. Sozinho e com a ajuda dos amigos de lá, farei as devidas incursões pelos bares da cidade e terei as novas. Não posso deixar de fazer isso, faz parte do meu contrato de vida!

Petrópolis, 13 de março de 2007.

postado por THIAGO às 10:08

Terça-feira, Março 06, 2007

PROXIMIDADE ÁLCOOL/RELIGIÃO: As oferendas

Parte 2

Na cultura do povo Inca, o Amauta é o filosofo, sabedor, testemunha dos tempos desde a criação do mundo! Não lhe agrada qualquer menção em chamá-lo de feiticeiro. Esse era o título de Ñauparruna, personagem do romance boliviano Manchay Puytu: el amor que quiso ocultar Dios, do escritor e jornalista Néstor Taboada Terán (1929).

Inti é o Deus-Sol e Killa a deusa-Lua, irmã e esposa do Sol. Quando o povo quéchua funda seu Império, o seu representante maior é o filho do Sol: o Inca. E seus súditos, os Incas. O Amauta vêm desde a criação do mundo, é descendente dos Gigantes.

Numa analogia com a mitologia grega, que é a mais estudada pelo ocidente (ainda, infelizmente), os Gigantes queriam o poder de Deus, o Pachacámaj, assim como Prometeu queria os raios de Zeus. Subjugavam todas as tribos e construíam monumentos, quartéis, templos e moradias tão grandes que acreditavam se equiparam ao grande criador. Até aí, tudo bem, Pachacámaj os deixava na grande ilusão de poder. Entretanto, a partir do momento que os Gigantes não levavam suas esposas quando invadiam as tribos, estimulando a relação sexual homem-a-homem, e por isso, impedindo a procriação, o grande deus acabou com essa empáfia e despejou uma tempestade de fogo sobre as aldeias.

A geração de Gigantes foi dizimada, a não ser um, que ousou ainda mais em sobreviver ante a fúria do Deus. Este sobrevivente haveria de ser punido, não com a morte, mas com a semelhança física de seus ex-subjugados, ou seja, ser transformado em ser humano e viver para sempre. Sua missão: alertar aos homens que não poderiam mais ousar contra o poder divino. Testemunha dos tempos e do sofrimento dos povos, o Amauta.

Ñauparruna dizia que para saber o futuro tinha que ver o passado. Aí que está nosso foco etílico nesse pequeno artigo: como é que eles se lembravam do passado e da vontade dos deuses em relação à pessoa que iria buscar a verdade com ele?

Através (literalmente) de boas doses de aguardente de milho e da chicha, uma bebida fermentada também do milho e de outros cereais! Juntando as sorvidas da birita com a disposição das folhas de coca sobre um tecido chamado phullu, o passado da pessoa explicaria o que estava reservado para sua alma nos próximos dias.

Quando a personagem do romance, María Cusilimay, vai a Ñauparruna para saber os motivos de seus infortúnios e sofrimentos, depara-se com o velho sábio em sua caverna, soturno e concentrado. Bastou um olhar dele para que ela percebesse o que estava faltando, além de não cumprimentá-lo educadamente. Sem coca nem aguardente, um risco. Pediu perdão ao sábio, mas as coisas não pareciam boas para a desamparada María.

As oferendas são fundamentais para a sabermos a opinião dos mais sensíveis, dos gurus espirituais. Ainda mais se nós tivermos fé!

Petrópolis, 6 de março de 2007.


postado por THIAGO às 09:20