|
Crônicas, contos, artigos, escritos em geral. A nossa cara à tapa pelas letras.
Desde de 2003
INTEGRANTES:
ROBERTO
GALLUZZI
Vitória-ES, 1978.
THIAGO QUINTELLA DE MATTOS
Rio de Janeiro-RJ, 1978.
RAFAEL MARÇAL
LEIAM TAMBÉM:
Teoria Sociológica, Professor Carlos Magalhães
Professor Fernando Massote
Groo
Biscoito Fino e a Massa, Professor Idelber Avelar
Sagrado pensamento profano
Versos de Falópio
De Analgésicos & Opióides
Agrestino
Sítio Terra Vermelha (Domingos Pellegrini)
Conto
meus contos
Paulo D'Auria
Eu Não
Cambalhotas
Girassol
Transparecendo
Haute Intimitè
Universo Bizarro
Deus e o Diabo na Casa de Câmbio
Foice
e Martelo Branco
Café do Dom
Mineiras, uai!
Angela
Gabi Coutinho
Jordan Dualibe
Pras Cabeças
Ipsis Litteris
Que
seja doce
Sapos
e Halls Amarela
Morcego Político
Ju Palhaça
Adelaide Amorim
Relatos e Fotos
Escritos ao vento
Segunda Edição
Contos de Adelaide
Rafael
Marçal
Amanda
Filhas do dono
Mínimos Óbvios
João Lenjob
Até mais ler
THIAGO E RAFAEL TAMBÉM ESCREVEM:
Gaveta
do Autor
(Seção de prosas)
THIAGO TAMBÉM ESCREVE:
GAVETA DO AUTOR
MACABELAGEM
TRAPICHES
VISITE O WEB SITE DA BANDA INVENTO!
www.myspace.com/invento
ARQUIVOS:



Última atualização: 28/05/2007 |
|
Sexta-feira, Maio 22, 2009
ARQUIETURA DA CASA GRANDE
— Não é à toa que existem as grandes varandas na casa do senhor das fazendas.
Assim um colega enunciou um dos deleitosos assuntos na pós-graduação em Ciência Política; tema que desenvolverei aqui, esperando o trem das cinco para voltar para Jaçanã, ou melhor, o machimbombo das cinco para subir para Terê (por seis minutos perdi os das quatro).
Do alpendre à porta da cozinha estavam designados os estágios de importância aos visitantes e convivas. Em assuntos sérios e formalíssimos, a reunião ou o breve colóquio não passavam da varanda, isso quando não se travava de uma discussão à distância, envolvendo marcantes disputas de poder, entre o senhor, da varanda ou alpendre e o interlocutor, da escadaria. Os demais eram classificados pelos cômodos da casa em que podiam adentrar, nos limites estabelecidos pelo senhor. Sala de estar e sala de jantar; e vestíbulos específicos, como sala de tragos e de fumo e escritórios.
À cozinha, só os mais íntimos tinham a permissão de ir. É comum graduarmos nossa intimidade desta maneira: “...o Peçanha? Pô, na casa dele só entro pela cozinha, é meu amigão!”, ou: “Monteiro Lopes Damásio? Você ta falando do Adilsinho? Ih, não sai da cozinha lá de casa!”. E a prosa se desenvolvia entre cafés, bolos, biscoitos; empregados, negrinhos e escravos compondo uma “natureza morta”, com vista para senzala.
— Aquela lá tem um pé na cozinha!
— Ó, e se bobear os dois pés na cozinha.
A “cozinha” é a nossa África.
Mas o sentido pejorativo de “cozinha”, muita vez, é, atualmente, camuflado. A outra conotação para “cozinha”, em nossa linguagem, é aquela que usamos para dizermos, — nem sempre com verdadeiro sentimento de satisfação — que temos marcantes heranças impuras de índios ou negros. Uma espécie de breve descida do nosso fantasioso pedestal para nos mostrarmos íntimos e populares, quando pensamos ser eternos fidalgos, quando não, nos imaginamos príncipes!
Aos novos ricos, dos que se consideram da alta sociedade, — aqui não importa como conseguiram a fortuna — que se estabeleceram nas grandes cidades do Brasil, a cozinha é a mistura de local dos empregados e de visitas íntimas. “O melhor lugar da casa”, nesses casos. Em festas ou eventos particulares, que atingem grande proporção, a cozinha é o recinto dos indignitários, dos empregados, dos serviçais. De lá não saem, exceto os garçons.
A partir desse ponto da discussão, apresentou-se-nos um caso:
Num desses mega-apartamentos da Zona Sul do Rio, seria comemorado o fechar de um acordo, ou seja, as disposições finais para as assinaturas de mais um projeto de políticas públicas do estado. Um dos grandes mentores desse projeto/negócio foi um insigne professor doutor dos institutos de Ciências Humanas das Universidades Federais, convidado de honra do evento, como não poderia ser diferente.
Eu conheço este professor por aulas e por alguns de seus trabalhos. Ele é excelente. Mas pouco importa minha opinião aqui. Voltando ao caso, o professor apareceu na festinha, onde promotores, juízes, deputados, secretários, demais professores-doutores e policiais de alto escalão também estariam presentes. Quando ele chegou, os responsáveis pela recepção encaminharam-no para a cozinha. Por alguns segundos ele pensou se tratar de uma prévia informal para o grande evento e fechamento do negócio, porém, em seguida, percebeu que foi confundido com os motoristas ou seguranças dos outros convidados.
O que não foi problema. Nada disse, em respeito, talvez a um procedimento da festa que ele não conhecesse e passou seu tempo em agradáveis conversas com todos que o cercavam naquele recinto — recordando, “o melhor da casa”. Confundido com motorista, não devem ter-lhe oferecido nenhuma cervejinha, — uma lástima. Ele ficou por horas, até que um dos anfitriões foi até à cozinha e reclamou do atraso do nosso protagonista com os empregados que ali conviviam com ele, à guisa de explicação pelo emperramento da festa.
Solícito e cortês, ele salvou a situação:
— Aquele que vocês esperam impacientemente está aqui, há muito tempo, esperando para iniciar os termos finais de nosso projeto.
Pode ter sido essa a frase dele, cuja cor de pele vocês já devem saber qual é. Todavia, jamais poderão graduar a vergonha dos anfitriões.
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2009.
postado por >THIAGO
às 11:26

|
|
 |